Sei que a proposta do blog era mais leve e humorística, mas me senti impelido a escrever esse post um tanto quanto mais sério. Talvez por motivos que nem mesmo eu conheça. Quem não estiver interessado, por favor, ignore o post.

É interessante analisarmos a forma como se articula a memória coletiva. Vivemos a sociedade do momento, onde paixões são tão passageiras quanto uma chuva de verão, onde a troca de cartas leva segundos. A memória, no âmbito da história, da filosofia e de outras áreas das ciências humanas, é o registro da existência. Partindo deste conceito, podemos definir a categoria histórica dos anônimos, ou seja, daqueles cujos vestígios de sua passagem pelo mundo às vezes não compreendem sequer registros documentais.

Cruz na porta da tabacaria!
Quem morreu? O próprio Alves? Dou
Ao diabo o bem-estar que trazia.
Desde ontem a cidade mudou.

Quem era? Ora, era quem eu via.
Todos os dias o via. Estou
Agora sem essa monotonia.
Desde ontem a cidade mudou.

Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, é um exemplo bastante adequado. Sendo uma espécie de personagem – e não nos cabe, aqui, discutir a conceituação de heteronímia – possui um registro histórico próprio: deixou, post mortem, uma bibliografia de um nível de complexidade que muitos autores “reais” jamais alcançaram. A nível de registro, Álvaro de Campos deixa o mundo das idéias e parte para uma existência quase física. Chega a ser cômico imaginar que o delírio de um escritor torna-se mais palpável que uma massa de pessoas que passaram por nós sem deixar vestígios.

Ele era o dono da tabacaria.
Um ponto de referência de quem sou
Eu passava ali de noite e de dia.
Desde ontem a cidade mudou.

Meu coração tem pouca alegria,
E isto diz que é morte aquilo onde estou.
Horror fechado da tabacaria!
Desde ontem a cidade mudou.

Anonimato. Segundo o dicionário Houaiss, 2ª edição do ano de 2004, anonimato é a condição ou qualidade do que é desconhecido, ou que não tem nome. Para a História, em especial, a categoria do anônimo é muito mais ampla do que o que se pensa. A historiografia os ignorou por muito tempo, e mesmo os estudos iniciados com as novas teorias acadêmicas deixam muito a desejar. No entanto, graças a essas mesmas novas teorias, é possível apelar a outros campos, como a literatura e a filosofia, para tecer uma análise da questão. Chamo a atenção para o fato de que o desconhecido é o motor da história, ator da peça do tempo, e até mesmo escritor de um bom número de páginas do destino, e como tal acabou por ser petrificado sob uma única “etiqueta”: o anônimo.

Mas ao menos a ele alguém o via,
Ele era fixo, eu, o que vou,
Se morrer, não falto, e ninguém diria.
Desde ontem a cidade mudou.

As citações, de uma das poesias mais famosas de Álvaro de Campos, devem trazer a você, leitor, uma reflexão bastante interessante sobre a questão da morte e da memória. E pense: ele, um poeta sem uma vida material e concreta, deixou um legado. Separou-se do grupo dos anônimos sem sequer ter um dia participado dele enquanto pessoa. E você? Faz algo que valha a pena ser citado?

Fica minha mensagem, eu diria até um tanto quanto poética – e que pretensão a minha fazer uma coisa dessas em um artigo onde cito o maior poeta da língua portuguesa – para todos os que lerem o texto e não tenham dormido pela metade: seja tão pessoa quanto Pessoa, cuja mente se dividiu em pessoas não-Pessoa complexas o bastante para serem pessoas reais ao lado de Pessoa.