Sobre o casamento…

Segunda-feira, 19/Novembro/2007

Um amigo, Erick Van Pato, da UFF, escreveu um texto muito interessante a respeito do casamento. Como disse a ele, apesar da linha de raciocínio não ser a que eu seguiria, e de eu não concordar com um ou outro ponto, a redação ficou ótima, bem clara e de fácil digestão.

Clique aqui para ler diretamente no Live Journal do autor.

Essa semana devo retornar com algum texto, embora ainda não saiba se vai ser de humor ou de reflexão um pouco mais séria. Enfim… Até.

Alienação? Tudo é relativo…

Segunda-feira, 5/Novembro/2007

Engraçado… No nosso microcosmo de universi(o)tários é muito comum encontrar termos como “alienado”, “acomodado”, ou então “subversivo”, “marxistóide”… Devo ter ouvido em alguma entrevista do Lobão algo sobre uma coisa que ele chama de patrulha ideológica. Não tiro a razão dele. A pseudo-intelectualidade – nossa, falei difícil, “mel dels!!11!” – dos nossos futuros acadêmicos me assusta bastante em relação ao futuro do debate científico nas humanidades.

Divergir das bandeiras levantadas por todos é heresia, e se desinteressar pelo cotidiano político é ainda pior, passível de fogueira à frente da reitoria. Reivindicar melhorias e pedir consciência é subversão, e não se alinhar às instituições é “rebeldia sem causa”. Acho incrível a polarização desse tipo de debate, e a facilidade com que os envolvidos se adjetivam a todo momento. O melhor é que estar aquém de ambas as pontas é sinônimo de indecisão, alienação, burrice ou qualquer coisa que o valha – quando não há o encaixe em um ou outro lado, feito pelo “time” oposto, é claro.

Entre os freqüentadores de shopping center, fanáticos por academia e viciados em futebol, e os leitores de Trotsky, filósofos de Gramsci e líderes estudantis, há uma gama de pessoas esquecidas por um modelo engessado e retrógrado – ai, falei difícil de novo… Sabe, isso me lembra bem a conceituação das classes pelo marxismo ortodoxo ou a generalização teórica elaborada por Gerardo de Cambrai e Adalberão de Laon, segundo a análise de Georges Duby.

O melhor foi ouvir que “analisar friamente ambos os ‘lados’ da argumentação e questioná-los igualmente é utopia”. A descrença em uma categoria pensante entre a “elite reveladora do sistema/massa subversiva” e a “massa alienada/sociedade padrão” me assusta às vezes. E o melhor de tudo é saber que entre os comentários que podem aparecer, muitos vão pescar pontos do texto e colocar tags do tipo “direitista, burguesinho, engomado” ou “marxistóide, intelectualóide, revoltadinho”.

Sei que a proposta do blog era mais leve e humorística, mas me senti impelido a escrever esse post um tanto quanto mais sério. Talvez por motivos que nem mesmo eu conheça. Quem não estiver interessado, por favor, ignore o post.

É interessante analisarmos a forma como se articula a memória coletiva. Vivemos a sociedade do momento, onde paixões são tão passageiras quanto uma chuva de verão, onde a troca de cartas leva segundos. A memória, no âmbito da história, da filosofia e de outras áreas das ciências humanas, é o registro da existência. Partindo deste conceito, podemos definir a categoria histórica dos anônimos, ou seja, daqueles cujos vestígios de sua passagem pelo mundo às vezes não compreendem sequer registros documentais.

Cruz na porta da tabacaria!
Quem morreu? O próprio Alves? Dou
Ao diabo o bem-estar que trazia.
Desde ontem a cidade mudou.

Quem era? Ora, era quem eu via.
Todos os dias o via. Estou
Agora sem essa monotonia.
Desde ontem a cidade mudou.

Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, é um exemplo bastante adequado. Sendo uma espécie de personagem – e não nos cabe, aqui, discutir a conceituação de heteronímia – possui um registro histórico próprio: deixou, post mortem, uma bibliografia de um nível de complexidade que muitos autores “reais” jamais alcançaram. A nível de registro, Álvaro de Campos deixa o mundo das idéias e parte para uma existência quase física. Chega a ser cômico imaginar que o delírio de um escritor torna-se mais palpável que uma massa de pessoas que passaram por nós sem deixar vestígios.

Ele era o dono da tabacaria.
Um ponto de referência de quem sou
Eu passava ali de noite e de dia.
Desde ontem a cidade mudou.

Meu coração tem pouca alegria,
E isto diz que é morte aquilo onde estou.
Horror fechado da tabacaria!
Desde ontem a cidade mudou.

Anonimato. Segundo o dicionário Houaiss, 2ª edição do ano de 2004, anonimato é a condição ou qualidade do que é desconhecido, ou que não tem nome. Para a História, em especial, a categoria do anônimo é muito mais ampla do que o que se pensa. A historiografia os ignorou por muito tempo, e mesmo os estudos iniciados com as novas teorias acadêmicas deixam muito a desejar. No entanto, graças a essas mesmas novas teorias, é possível apelar a outros campos, como a literatura e a filosofia, para tecer uma análise da questão. Chamo a atenção para o fato de que o desconhecido é o motor da história, ator da peça do tempo, e até mesmo escritor de um bom número de páginas do destino, e como tal acabou por ser petrificado sob uma única “etiqueta”: o anônimo.

Mas ao menos a ele alguém o via,
Ele era fixo, eu, o que vou,
Se morrer, não falto, e ninguém diria.
Desde ontem a cidade mudou.

As citações, de uma das poesias mais famosas de Álvaro de Campos, devem trazer a você, leitor, uma reflexão bastante interessante sobre a questão da morte e da memória. E pense: ele, um poeta sem uma vida material e concreta, deixou um legado. Separou-se do grupo dos anônimos sem sequer ter um dia participado dele enquanto pessoa. E você? Faz algo que valha a pena ser citado?

Fica minha mensagem, eu diria até um tanto quanto poética – e que pretensão a minha fazer uma coisa dessas em um artigo onde cito o maior poeta da língua portuguesa – para todos os que lerem o texto e não tenham dormido pela metade: seja tão pessoa quanto Pessoa, cuja mente se dividiu em pessoas não-Pessoa complexas o bastante para serem pessoas reais ao lado de Pessoa.